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POR ALEKSANDER SCHOFFEL

Esse trabalho busca explorar possiblidades de memória via fotografia. Por meio de um experimento pessoal, levo a imagem de minha avó para histórias que ela não viveu. Se, como afirma Kossoy (1996), “a fotografia é memória e com ela se confunde”, é possível, via fotografia, criar memórias? Tendo como ponto de partida uma fotografia dela no dia de seu casamento, o momento mais simbólico de uma relação em uma sociedade heteronormativa, o produto final deste trabalho é um convite: à especulação, às possiblidades, à cura das dores da alma.

 

Memórias de Geralda

 

"Toda foto é um convite à especulação e todo espectador diz sim ao convite." Adelaide, 2018 No enlace entre realidade e ficção, a fotografia se sustenta como possibilidade. O texto, mero aparato formal. É na imagem que reside uma materialização do não-vivido. “As fotos têm uma realidade que as pessoas não têm.” (Avedon, 2012). Observando a esquecida caixa de fotografias de minha avó me deparo com um fato curioso. Só existem quatro fotos dela: uma dela jovem, antes de conhecer meu avô, e outras três do dia de seu casamento. Nenhuma fotografia do casal. Intrigo-me. Tento buscar na memória algo sobre ele, qualquer fato, qualquer informação. Não há. Quem terá sido ele? Ele me parece fantasma, um sangue fantasma pulsando dentro de mim. Alguém que nunca vi, que pouco ouvi falar, que conheço tanto (ou menos) quanto conheço um vizinho distante com quem apenas se cruza na rua. Quem terá sido ele? Por que ele parece não ter existido nessa família? Me pergunto qual seria a história que ela, minha avó, tem a me contar sobre meu avô e o que ocorreu na linha do tempo para ela guardá-lo desta forma. No relato de Geralda Doerlitz, minha avó, ouço um personagem ruidoso, que não sei ao certo se é fruto da idade avançada dela, de uma memória não antes compartilhada, ou ainda de uma falsa memória. Na fotografia, encontrei possibilidades de explorar um avô que aparentemente não tive, nem presente devido ao seu falecimento precoce, nem conceitual por meio do não compartilhamento de histórias dos meus (que são dele também). Mas, pela fotografia, encontrei uma possibilidade de materializar uma alma que não sei se existiu; preencher o álbum vazio que ela guarda; ou ainda, criar um companheiro/marido que minha avó teve, quis ter ou esquecer.