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POR OSMAR GONÇALVES

A SOBREVIVÊNCIA DOS VAGALUMES

 

 

Esta série surge de uma questão primordial: afinal, quem tem direito à cidade? Para quem ela vem sendo pensada e construída hoje? Desde 2014, tenho viajado por diversas cidades da América Latina fotografando as ruas à noite e, em cada uma delas, me surpreendo com o grande número de ambulantes ocupando as calçadas, povoando as praças, disputando cada centímetro vago nas esquinas. Envoltos na penumbra, eles emergem como vagalumes, como pequenos seres luminescentes, erráticos que, por meio de seus gestos e movimentos nômades, afirmam outros modos de compreensão da cidade, outras formas de viver e praticar o espaço urbano. É que diante dos projetos de urbanização atuais, marcados como nunca pela assepsia e pela espetacularização dos espaços, os ambulantes surgem como forças de resistência, como pequenas insurgências a nos oferecer um tipo de experiência desviante, não planejada – experiências que reafirmam usos mais lentos e coletivos da cidade.

 

Nas margens, nas bordas da cidade-espetáculo, portanto, eles resistem e nos fazem lembrar de um tempo onde a rua era um local de encontro, um lugar para se gozar. Não apenas um ponto de passagem, mas a sede da pólis, um espaço eminentemente poético e político: local de fluxos e contatos culturais, de discursos e lendas; lugar de (re)modelação permanente, onde as hierarquias se desestabilizam, onde as formas aparecem para logo em seguida se desfazerem, onde a cultura urbana pode recuperar certa energia adormecida para se reinventar, se remodelar, apontando assim, quem sabe, para novas formas de viver e habitar juntos.