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TERRITÓRIO MUDO

POR ANDRESSA ONARA

"Na imersão que sugere o deserto, buscamos formar a poética de Território Mudo: um homem só e a aridez de seu silêncio. Junto a ele, a estrutura de tapumes e tecidos, migrante e estrangeira, estabelece uma relação ausente de vozes, onde a comunicação parte do gesto reativo e da imagem viva. É na integração entre os dois corpos que se define o imaginário estético do deserto, não necessariamente vinculado ao ambiente, mas ao sentido: a ausência da palavra é o princípio do duro e do estéril. Partindo de pesquisas pessoais sobre as percepções sensíveis de Hélio Oiticica para a
concepção do labirinto de tapumes e do texto dramatúrgico “Terra Bruta”, de Nicolas Beidacki, a ação Território Mudo não se prende somente ao que vemos; é o sentido lírico de deserto, buscado através do silêncio deste homem que dança e migra, que buscamos definir. Ele se torna um símbolo do não dito, aquilo que pode ser acompanhado somente através do corpo: um homem sem origem e sem finitude, um movimento contínuo, tão estrangeiro quanto a estrutura que o acompanha. Por esse homem, se desdobram uma série de símbolos peculiares, geradores de um novo lugar: o deserto passa a ser também uma pátria desconhecida e silenciosa, atraente e distante. A fotografia analógica materializa esse lugar transitivo entre o simbólico e o real, vivificando as cores dos corpos que já existem para uma nova aura imagética. São, desta forma, a dança, os tapumes e o analógico as ferramentas condutoras do deserto, as codificações para sua existência viva."