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ESTRUTURAS PERMANENTES E TEMPORÁRIAS

POR VICENTE BRASILEIRO

"A cidade se interpõe a todo momento ao olhar de quem nela vive. Em nenhum instante ela para de nos lembrar que existe. Grita em sirenes por atenção, acena em letreiros, pisca em semáforos. Nos chama a todo momento para estarmos nela e com ela.
O olhar é, para ela, sempre direcionado. A cidade nunca sai de nosso campo de visão. E mesmo que fosse construída uma estrutura alta o suficiente para que enxergássemos para além dela, ela tornaria a enevoá-lo. O privilégio do olhar se torna pesadelo monótono. Ao longe, lá ela está, miúda e presente. De perto, cobre a si mesma com véus transparentes e, ao mesmo tempo, opacos. A cidade se interpõe também a si mesma, em universos aninhados e conflitantes de concreto e fuligem.
Talvez o único espaço que traga ou tente devolver uma certa liberdade ao olhar seja o céu. Ele parece ser o que de mais natural a cidade possui, mais ainda que os parques e praças que, já no momento de (e exatamente pela) sua concepção e planejamento, deixaram de ser natureza. A natureza é o contraponto da cidade. É oposto de tudo que foi construído.
Este trabalho se torna então uma busca da natureza, ou dos momentos de natureza que a cidade permite ver entre suas estruturas.
Mas a cidade é implacável."