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ENCANTADOS DA SERRA

POR ERIC GOMES

“Quem disse que não sou índia?!! Só por que sou preta e tenho cabelo ruim?!!” Dona Emília, mãe da cacique Dorinha, é do povo Pankará, nascida e criada na Serra do Arapuá há mais de 70 anos.
A pele negra e o cabelo crespo são muito comuns nos povos originários do sertão de Pernambuco e também questionados sistematicamente com a intenção de desqualificar a luta pela demarcação das terras e eliminar a identidade indígena. “Diferente de outros lugares, em Pernambuco, índio casa com não-índio. Por isso houve essa mistura. Não tem mais índio puro, mas tem índio de cultura, de tradição e de luta. O que diz ser índio é o sangue, não é o cabelo, o olho." – afirmou a Cacique Dorinha Pankará no trajeto de 40 km entre a cidade de Floresta e a aldeia Cacaria.
Existir nunca foi tarefa fácil no sertão de Pernambuco. Dona Emília era criança quando sua futura sogra, Dona Luzia Joaquina, correu para o meio do mato com 4 crianças. Ela queria sobreviver ao ataque de fazendeiros que roubaram a farinha de mandioca e queimaram a casa da família à procura do seu marido, Luís Antônio – importante liderança da resistência Pankará na Aldeia Cacaria. Queriam matá-lo. Em maio de 2016, um Gentil (casa sagrada para rituais religiosos) foi incendiado na Aldeia Marrapé.
Os olhos d’água, grotas, imbuzeiros e riachos que mostravam o fim de um e o começo do outro foram substituídos pelas cercas de arame farpado e porteiras. E, na cidade, o não-índio questiona o uso do celular, da roupa e o morar numa casa. “Sou índia. Uso celular, você não me ensinou?! Não como gente, mas se for pra comer, eu como; moro numa casa. E eu não sou gente? Sou bicho?! Para esse povo, é pra gente andar nu, comer gente e morar no mato."
Como podemos ver, em pleno século 21, ainda são mantidas as relações de poder baseadas na colonialidade. É nessa estrutura que encontramos a homogeneização como ferramenta de dominação e imposição de uma reorganização social – no século XVI empregavam o termo “Tapuia” negando a pluralidade dos povos indígenas do sertão nordestino, hoje negam completamente a existência do outro devido ao uso de um celular ou de um carro.
É comum essa negação vir de forma explícita e sob tutela do Estado. Em 1760, por exemplo, o sargento-mor Jerônimo Mendes da Paz escreve ao governador de Belém de São Francisco que enviou bandeira à serra dos Uman (território indígena hoje vizinho ao Pankará) e tentou também enviar mensageiros para persuadi-los a reduzirem-se [...]. Conseguiram prender dezessete mulheres e crianças e os índios fugiram para a missão do Brejo (atual território Pankararu nos municípios de Petrolândia, Jatobá e Tacaratu).
Outro exemplo, é a Lei de Terras (Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850) que confiscou as terras indígenas para destiná-las à colonização trazendo a população negra como escrava para trabalhar nas fazendas de gado. E já no século XX, ou seja, 50 anos depois da Lei, podemos encontrar instaladas na Serra do Arapuá famílias que detém o poder político e econômico das cidades de Floresta e Carnaubeira: Novaes, Ferraz, Carvalho e Menzes. Mantendo-se nesta condição até hoje.
O projeto Encantados da Serra é resultado da constante construção coletiva entre mim, o povo Pankará e o quilombo-indígena Tiririca dos Crioulos cujo objetivo é o registro oral e imagético da relação de resistência histórica entre esses povos a partir do relato das anciãs e anciãos. Essa parceria começou em 2012 e já conta com uma coletânea de 06 vídeo distribuídos entre as escolas dos povos envolvidos."