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DIÁRIOS DE UM VIAJANTE DO TEMPO

POR FERNANDO MAIA CUNHA

"Estar diante do tempo, aliás atravessá-lo, se tornou a base do processo da construção das imagens deste ensaio, meus pais que atuavam na militância política e partidária desde 1963 perante a minha chegada e das ameaças contra a vida que advinham do regime que estava a frente do nosso país tiveram que deixá-lo, rumo a Albânia, a fim de trabalhar na Rádio Tirana. Em exílio vivemos
seis anos até retornarmos ainda clandestinos ao Brasil, trazendo entre muitas coisas, dois álbuns de retratos de família que são disparadores das inquietações que permeiam este ensaio. Buscando retornar no tempo e fluidamente entrelaçar as imagens mentais e as memórias através das fotografias se abriu o espaço para a narrativa ficcional contida neste trabalho. Após um processo de escolha das fotografias mais significativas, cada uma delas foi estudada em matéria de iluminação (direção,
textura e qualidade) e possíveis localizações para que fossem inseridas a minha imagem. Em posse destes dados para cada foto foi executado um autorretrato com iluminação, performance e figurino diferenciados, condizentes com cada fotografia. E finalmente através de um trabalho de pós-produção digital cada autorretrato foi inserido de maneira sempre discreta em segundo plano, por vezes embaçada na fotografia, reforçando o conceito de que ao olharmos uma fotografia nos remetemos ao tempo dela.
Essa narrativa foi construída como se eu pessoalmente estivesse nesta imagem, olhando para tudo que estava dentro do enquadramento, mas principalmente como um viajante do tempo que através da fotografia é deslocado fisicamente para aquele tempo e consegue ver tudo que estava fora do enquadramento, e, como nas ficções, acaba sendo registrado na imagem. Abre-se assim uma
possível estratégia para enfrentar desafios estéticos, conceituais e políticos ao ouvir o que as imagens pensam e nos dizem proporcionando uma configuração esperançosa de mudança para esses tempos sombrios."