1/1

POR MARI GEMMA DE LA CRUZ

Descrição do ensaio - Peito de Pedra
A percepção da nudez como algo obsceno é decorrente da noção do “pecado original” que evidenciou a corrupção do homem à tentação e a consequente perda da “Graça Divina” da eternidade, segundo a moral judaico-cristã ocidental. Na Grécia, o modelo de mulher estava idealizado na divindade, especialmente em Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade. Com o cristianismo, ocorreu a divisão entre corpo e alma e a nudez corporal passou a significar vergonha e humilhação, deixando de aparecer na arte, a não
ser para simbolizar o pecado. Mulheres foram mutiladas e seus seios extirpados em martírio, como Águeda de Catânia (séc. III d.C.) mártir das tradições cristãs, que posteriormente foi santificada, tornando-se padroeira das doenças mamárias. Durante o Renascimento, o ideal de corpo feminino grego foi revisitado, devido aos estudos da anatomia humana nas escolas de artes, passando a ter várias representações como sensualidade, delicadeza, paz, liberdade e justiça, até o final do século XIX, quando
passou a apresentar-se sem qualquer pretexto. No século XX até os dias atuais a sacralização e “cosmetização” da imagem do corpo tem se intensificado levando à consequências nefastas na tentativa de manter a juventude e beleza eternas, a qualquer preço, de acordo com um padrão idealizado: corpos com equilíbrio, simetria, proporção, solidez e, sobretudo, corpos rígidos e fortes, estimulados pela indústria da “beleza”, incorporando discursos da medicalização. Entretanto, ainda prevalece a noção de obscenidade do corpo quando exposto no espaço público. O corpo na arte é sempre um corpo-representação, um corpo imaginário que revela narrativas e cria ou reforça sentidos. Ao apresentar o corpo nu ao outrx, estamos
desapropriando este corpo, levando ao desvelamento da sua intimidade, quebrando tabus morais e ao mesmo tempo imobilizando o corpo-objeto, dando origem ao corpo-arte. Existe em toda sociedade uma manipulação de poder que impõe condutas corporais coercivas, que desestruturam e alienam a produção dos sentidos e que produz uma inversão de valores do que é ‘ser humano’ e suas relações. A violência de gênero e a criminalização do direito de se expor reflete o avanço do fundamentalismo religioso em
nosso sistema político e jurídico, que carrega em si a ideia de que a exposição do corpo nu, quando não em funções socialmente aceitas e impostas, é pecado e deve ser punido.
Um espelho desta realidade é o fenômeno da violência contra as mulheres, problema de Estado crescente na América Latina, já que em pesquisa recente, 58% dos homens entrevistados responderam que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”.
No gênero autorretrato, também nos colocamos na frente do espelho real ou ficcional, é também social e político, portanto, um quadro pessoal que se transforma em imagem. A objetivação dessa imagem especular unida às nossas representações corporais pode nos colocar no limiar entre o patético, a obscenidade e a transcendência do eu na subjetividade, de qualquer forma ocorre a fixação de um momento e de um sentimento, deslocando o corpo em movimento performático para o imóvel corpo-arte.

A arte no século XXI vem tentando romper com a perspectiva do “quadro de espelho” como “selfie instantânea”, onde o corpo-objeto se destrói, se constrói, se mostra e se esconde num jogo de esteticismo constante e imposto pela vida cotidiana, que nos inunda de sinais de uma estética estereotipada, induzindo alcançar o ideal de perfeição e felicidade, sem marcas da doença ou de velhice. Neste paradigma pós-moderno, as narrativas na arte já admitem a ideia de acaso, de paradoxo, de ambiguidade e de interconexão das diversas verdades. As imagens produzidas celebram para além dos corpos clássicos, outros corpos que podem ser decadentes, irreais ou imperfeitos. As imagens apresentadas neste ensaio constituem: - autorretratos e retratos de mulheres, em longa exposição e movimento para causar imperfeição e indefinição; - imagens de esculturas em exposição em museus ou nas ruas de diversos países, obtidas a partir de fragmentos de espelhos o que sugere uma desconstrução da estética hegemônica perfeita;- poesia da própria autora; - imagens onde a forma do seio, interna ou externamente, aparece cotidianamente. 
O ensaio ‘Peito de Pedra’ propõe a reflexão do modelo renascentista ainda vigente como única verdade, superando a ilusão de que todxs devemos partilhar do corpo onde a nudez é universal, clássica, perfeita, pura, eterna e obscena quando não apresentada em espaço delimitados, devido às imposições morais, religiosas e culturais às quais as mulheres estão submetidas. Não somos parte da natureza, somos natureza também, já que a paisagem é uma metáfora da vida que passa por diferentes geografias, com direito de
vivermos por inteiras, sem medo e sem vergonha.